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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entrevista de Campos e Cunha ao jornal Sol, antigo ministro das finanças arrasa com politicas de Sócrates.



Luis Campos e Cunha, o primeiro ministro das Finanças de José Sócrates, que saiu depois de quatro meses de governação, diz que Portugal terá pelo menos cinco anos de crescimento «anémico» e que uma taxa de juro de 4,2% no pacote de ajuda da UE/FMI seria «muito positivo».
Em apenas um ano, a crise da dívida soberana obrigou ao resgate de três países na Zona Euro (Grécia, Irlanda e Portugal). O que se segue?
É difícil saber. A haver nova ajuda financeira na Zona Euro será a de Espanha, mas espero que não aconteça. Porém, o pedido de auxílio de Portugal foi o fim da última trincheira antes de Espanha. Os espanhóis tinham desaparecido dos jornais internacionais como problema e voltaram a surgir. Madrid tomou medidas de austeridade atempadamente, ao contrário de Portugal. E, se não necessitar de apoio internacional, foi porque fez o trabalho de casa . Mesmo assim, o primeiro-ministro Zapatero já anunciou que não se vai recandidatar.
O que tem falhado na política económica europeia?
A culpa dos problemas reside, sobretudo, nos próprios países. Os irlandeses têm alguma desculpa, porque as finanças públicas estavam em ordem e foram contaminadas por um sistema financeiro mal supervisionado. Em Portugal, a origem da crise e do resgate está na política orçamental completamente desastrosa, sobretudo a partir de 2008.
Quais foram os principais erros?
Portugal teve azar em ter um Governo muito eleitoralista e com eleições no final de 2009. O Governo começou a prepará-las logo em 2008, com a redução do IVA no primeiro trimestre. Devo ter sido quase a única voz que se levantou contra a medida, alertando que era demasiado prematura e que o sistema financeiro poderia necessitar de algum apoio do Estado, como estava já a ser previsto em diversos países em consequência da crise do subprime nos EUA. Após a falência do Lehman Brothers, em Setembro de 2008, instalou-se uma onda de pseudo-keynianismo na política económica mundial que caiu como sopa no mel a um Governo que está à beira de eleições e que passou a gastar sem restrições. A primeira má surpresa surge em Janeiro de 2010, quando o défice de 2009 foi revisto em alta até 9,2%.
Aí começaram as desconfianças dos mercados?
Sim, os mercados, ou melhor, os nossos credores começaram logo aí a desconfiar de Portugal. A seguir às eleições, com a expectativa de que iria durar poucos meses, o Executivo cedeu a uma série de interesses - médicos, enfermeiros ou professores - que receberam amplas benesses entre o final de 2009 e início de 2010. Depois, o primeiro Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), de Março de 2010, era muito fraco e não atacou o problema a sério. Em Abril, a S&P desce em dois níveis o rating da dívida e, a partir daí, foi uma bola de neve . O Governo reagiu sempre tarde aos acontecimentos e, quando se reage tarde, não se é credível e isso é terrível para a reputação de um país. Estava nas cartas já nos finais de 2010 que Portugal teria de pedir ajuda internacional.
Que expectativas tem para o plano de ajuda da UE/FMI?
Tem de ser suficientemente compreensivo, alargado e forte para que os mercados acreditem, mas não pode ser tão violento ao ponto de as pessoas não acreditarem que seja praticável. Se for feito um pacote de reformas coerente e sustentável, é obrigatório do lado da União Europeia aplicar taxas de juros e prazos de pagamento mais vantajosos do que os do mercado, porque o risco de Portugal será também menor. Se conseguíssemos uma taxa próxima da Grécia (4,2%) seria muito positivo.
A banca foi uma vítima?
Foi totalmente vítima da política orçamental irresponsável do Governo. No fim de 2009, os bancos mostraram que tinham feito uma avaliação do risco muito cuidada face aos alemães, norte-americanos ou ingleses. Mas, em Abril de 2010, o rating de Portugal baixa em dois níveis, obrigando a uma descida do da banca. O sector vê os mercados de financiamento fecharem-se e fica a braços com problemas de funding e de concessão de crédito.
A restrição de crédito ameaça o crescimento das exportações?
Há o risco de o sistema financeiro não conseguir conceder o crédito necessário às empresas exportadoras e levar a que as vendas ao exterior não cresçam como o esperado. A Europa está a viver uma política monetária muito expansionista, ao contrário de Portugal, que é muito contraccionista, porque a banca não consegue fazer chegar o crédito em quantidade e a baixo custo aos consumidores e empresas.
Os portugueses já tomaram consciência do que aí vem?
Sabem que a situação é muito difícil, com taxas de desemprego recorde, subidas de impostos brutais e redução de apoios sociais. O que aí vem, nem eu sei - e sou professor de Economia! Para já, temos garantidos pelo menos cinco anos de crescimento muito anémico; se as coisas não correrem bem, serão dez.
É imperativo um Governo ou coligação maioritária para aplicar as medidas do FMI?
Não sou a favor de um centrão no poder, mas, em momentos dramáticos como este, pode ser preciso um bloco alargado e amplamente consensual no Parlamento que consiga conduzir o país durante três ou quatro anos.
E é possível um governo de Bloco Central com os actuais responsáveis políticos?
Não será possível com José Sócrates. Sócrates é o problema e com ele não haverá qualquer coligação possível. Se o PS perder as eleições por larga margem, é natural que mude de secretário-geral. Se perder por margem curta ou ganhar as eleições, Sócrates continuará.
Como avalia o trabalho de Teixeira dos Santos?
Teixeira dos Santos foi um mero executor da política orçamental de Sócrates. Qualquer pessoa que me sucedesse tinha de aceitar que Sócrates era o ministro das Finanças. É a Sócrates que devem ser atribuídas as responsabilidades pela situação do país.
Estamos em risco de reestruturar a dívida, como a Grécia?
A Grécia é um caso muito particular, porque tem um nível de endividamento de cerca de 150% do PIB, um valor dificilmente sustentável. A necessidade de reestruturação é capaz de ser inevitável. O nosso caso dependerá de dois efeitos: o primeiro é a tentação de Portugal querer avançar para uma reestruturação se a Grécia a fizer e se correr bem. É sempre uma tentação grande para os políticos portugueses não pagar, embora pagar o que se deve honre os países e as pessoas; o segundo efeito depende da sustentabilidade do pacote e das medidas de ajuda. Se este assegurar taxas de juro comportáveis para consolidar as finanças públicas, Portugal não deve reestruturar a dívida. Isso seria uma vergonha para todos nós.

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